Estava eu hoje a ver um programa do meu guru Eládio Clímaco, em que ele anda pelos caminhos de Portugal, quando ele vai falar com um produtor de queijos. Na legenda surge que o senhor não sei das quantas é "produtor de queijos acerca de 10 anos". Sendo a RTP o canal televisivo que apresenta o programa "Cuidado com a Língua" e tem as rubricas "Em Bom Português", talvez fosse de recordar que "acerca" significa "sobre", pelo que estavam a dizer que o senhor era "produtor de queijos sobre 10 anos" quando o correcto seria "há cerca".
Mas isto nem parece nada de especial quando, ainda há poucos dias, no telejornal do mesmo canal, enquanto anunciavam algumas políticas do governo, surge a palavra "numeação" ao invés de "nomeação" já que vem da palavra "nome".
Talvez isto não seja de admirar num país em que, nas provas de português, os erros ortográficos e gramaticais não são descontados. Assim, é provável que em breve vejamos numa prova de português o seguinte excerto dos Lusíadas:
"As armas e os barões acinalados
Ke, da Ossindental praia Luzitana
Por mares nunca dantes navegados
Paçaram ainda além da Taporbana
Em prigos e gerras exforssados
Mais do ke prometia a forssa umana
E entre jente remota edeficarão
Novo Reino, ke tanto soblimarão"
As perguntas serão algo deste tipo: "Identifique o que foi edificado" ou "Diga o que nunca foi navegado". E isto já é muito bom se compararmos com a alternativa do teste ser de escolha múltipla. Agora, tendo em conta aquilo a que os estudantes estão habituados, um teste "bué de difícil" pediria para dizer um sinónimo de "Lusitana" e, logo aí, colocar-se-ia a questão de saber o que é um sinónimo.
Noutro momento darei mais algumas opiniões sobre o sistema de ensino e os seus intervenientes mas, por agora, fica o reparo à RTP e a versão correcta dos Lusíadas (não vá algum chico-esperto acreditar que o que escrevi em cima está certo):
"As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram".
Felizmente a língua portuguesa permite-nos pequenos trocadilhos através destas palavras com múltiplos significados.
Hoje ao almoço, deparei-me com cerca de 6 indivíduos que fizeram questão de afirmar alto e a bom som que eram engenheiros. Pergunto eu: onde arranjaram o diploma? Estão inscritos na Ordem? Não cheguei a saber mas, o que é facto, é que quando na TV informaram que uma plataforma do eixo Norte-Sul tinha caído, nenhum deles me pareceu particularmente surpreendido com o sucedido. Eles lá sabem o que eles e os seus colegas fazem...
Mas talvez esta fosse uma boa oportunidade para perguntar se o engenheiro que planeou aquela obra tem um diploma da Independente e se está inscrito na Ordem. O cúmulo dos cúmulos era aquela plataforma ter sido projectada pelo Mário Lino!
E nem de propósito, aproveitando o facto de um funcionário da DREN ter sido demitido após ter feito uma piada em relação à licenciatura do Sócrates, não deveria também o Mário ser demitido, apenas por uma questão de igualdade de critérios. Obviamente, a demissão deste trabalhador resultou somente de politiquices mesquinhas, mas é uma clara evidência de como funciona a censura, principalmente se pensarmos que a conduta de outros profissionais é bem pior e não é alvo de qualquer acção disciplinar.
E já que estou a falar de censura, li algures que os governos estão a exercer maior controlo sobre a informação, principalmente aquela que é divulgada na internet. Acontece que eu tenho uma grande simpatia pelo meu blog (ou não fosse ele meu) e não gostava de o ver censurado. Como tal, e como todos somos corruptíveis (o que varia é o preço), eu aviso desde já que, por uma módica quantia, estou disposta a usar o meu blog para divulgar e manipular informação da forma que os governos acharem mais conveniente. Sempre quis servir o meu país!